Será que conseguimos ter edifícios de tal forma eficientes e resilientes para resistir às elevadas temperaturas numa onda de calor?
E será que é possível ir mais além e conseguir assegurar os adequados níveis de conforto e bem-estar sem recorrer a qualquer meio de climatização?
A resposta é sim.
Deixo a explicação aqui em baixo.

O exemplo apresentado é uma habitação unifamiliar no distrito de Coimbra cuja temperatura interior na semana passada não ultrapassou os 26ºC mesmo com mais de 40ºC lá fora.
Esta casa começou a ser utilizada há um ano e é um projeto desenvolvido e coordenado pela Homegrid.
E esta casa tem uma elevado desempenho e, como tal, consegue manter o conforto térmico com reduzidos consumos de energia para aquecimento e arrefecimento. Esta casa tem ainda uma outra particularidade que a torna especial: neste momento não tem climatização instalada. Durante o processo de construção, após a conclusão da envolvente do edifício, o conforto térmico era tal que fez com que os clientes ficassem tão confiantes no desempenho e avançassem para a utilização da casa sem instalar sistemas de ar condicionado, como estava previsto no projeto. Portanto, na obra, foi apenas executada a pré-instalação da climatização, ou seja, permitirá a sua instalação no futuro quando desejado.

Passou, entretanto, um ano desde que os clientes começaram a utilizar a casa e a resposta da casa foi sublime. Não se verificou a necessidade de ter climatização. E qual é o segredo por detrás deste desempenho excecional no verão e, em particular, durante uma longa onda de calor?
Por um lado, temos de evitar a transferência de calor que neste cenário significa evitar a entrada de calor. Por outro lado, temos de evitar ganhos de calor indesejados. E isto é conseguido com:
- Isolamento térmico em espessura adequada nas paredes, cobertura e pavimento para evitar a transferência do calor para o interior da casa.
- Janelas de bom desempenho térmico: boa caixilharia bem instalada e vidro com características adequadas. Há que ter atenção ao fator solar do vidro, pois pode haver a tendência para reduzir o fator solar (quanto mais baixo for menor é a radiação solar que entra), que é benéfico no Verão, mas impede os ganhos no inverno.
- Sombreamento pelo exterior das janelas, aqui com um sistema sazonal amovível aplicado na pérgola, ativado no Verão e desativado no Inverno, de modo a evitar ganhos de calor pela entrada da radiação solar direta.
- Boa orientação solar: a maior parte dos envidraçados está orientada a Sul, facilitando o sombreamento ao mesmo tempo que potencia os ganhos solares no Inverno.
- Estanquidade ao ar, de modo a impedir entradas de ar descontroladas do exterior. Basicamente, trata-se de não ter uma casa rota.
- Sistema de ventilação com recuperação de calor… por razões óbvias. Controlamos deste modo os caudais de ar, os níveis de humidade e conseguimos evitar ganhos de calor. Por exemplo, com uma eficiência de 90%, com 25ºC no interior e 40ºC no exterior, o ar novo entra a 26,5ºC… em vez de entrar a 40ºC.
- “Last but not least” elevada inércia térmica. Este é um passo fundamental se quisermos levar ainda mais longe o desempenho passivo. O calor acumulado ao longo do dia vai ser armazenado nos elementos construtivos pesados. É aquilo que defendiam e defendem os pioneiros da arquitetura solar passiva, como os arquitetos Fausto Simões e Francisco Moita.

A grande vantagem desta abordagem ponderada e cuidadosamente adaptada à realidade daquele lugar é que o desempenho literalmente passivo (sim, sem qualquer sistema de climatização) também é possível no Inverno.
Em janeiro deste ano, com menos de 3ºC lá fora, o interior estava com uns confortáveis quase 23ºC. E isto sem consumir energia para climatizar.

Fica demonstrado que é possível ter edifícios com elevado desempenho, com custos de construção perfeitamente convencionais e que resistem a condições climáticas exigentes, como é o caso de ondas de calor.
É este desempenho que eu quero em todo o parque edificado em Portugal.
Ah… ia-me esquecendo de dizer. Esta casa é uma Passive House.
